Wednesday, March 4, 2020

carta aberta de uma italiana em Lisboa

Querid@s e conhecid@s,
Hoje uma amiga me perguntava sobre as notícias que vêm de Itália, assim pensei escrever isto.
Desde 21 de fevereiro, na minha terra arrebentou a bomba do coronavirus, encontrando-se o primeiro paciente a ser infectado, um homem de 38 anos, ainda a ser ventilado.
Todo este tempo e parece que cá em Portugal os serviços públicos ainda vão ter tempo até sexta feira para elaborarem um plano de contingência. Mas isso não devia existir já??
Antes podia-se dizer que os datos da China não fossem suficientes, mas a medida que os dias têm passado desde o dia 21, dava para perceber que a coisa não é coisa pouca. Estamos todos na velha Europa de confiança, certo?

Tenho publicado notícias de fontes médicas, que vou tentar resumir.
É de ontem a notícia que a taxa de mortalidade foi elevada pela OMS ao 3,4%. Como é de ontem a notícia que a primeira vitima mortal na península ibérica faleceu a 13 de Fevereiro. Esta bomba anda por aqui há muitos dias. Só não se fazem as analises suficientes para perceber quem a carrega.
Alem da elevada taxa de mortalidade, o virus é altamente contagiante. Um 20% dos infectados vem a necessitar dos cuidados intensivos (e 5% de ventilação). Isto não é uma normal gripe.
Repitam comigo: isto NÃO é uma normal gripe.
Em Itália, os hospitais das zonas mais afectadas estão a entrar em colapso, pela quantidade de pacientes a necessitarem de cuidados intensivos. As camas escasseiam e, acabados os lugares suplementares em hospitais vizinhos, os médicos vão ter de começar a escolher quem vai ser ventilado quem não, palavra dos mesmos médicos. Há pessoas nas zonas vermelhas, que deviam estar de quarentena mas andam por ali, a esquiar ou fazer rave parties.

Assim, eu peço-vos, por favor, que se zanguem.
Peço-vos que exijam que a política olhe para a ciência, antes que para o mercado. Se não conseguimos que aconteça agora, frente uma situação evidente, urgente e emergente, queremos que aconteça com o global warming (igualmente evidente, urgente e emergente, mas com os efeitos menos imediatos para alguns)?
Peço que exijam medidas de contenção verdadeiras: fechamos as cantinas das escolas, mas não as escolas? Que paninhos quentes são? E se fecharmos as escolas somente, com quem ficam os putos?
Peço que se e quando serão activadas medidas de contenção mais sérias não fujam delas.
Peço que não andem a cirandar se estão doentes; não andem a cirandar se vos mandarem ficar em casa.
Embora duvide muito que se chegue a este ponto aqui: o Capital manda mais.
O Capital fala mais alto do que uns quantos mortos, mesmo que sejam muitos.
Os Airbnb's não tem camas de cuidados intensivos.

Peço que não brinquem com quem tenta se proteger,  pois quem leva a mascara pode ser um doente oncológico ou himunodeprimido por outras razoes.
Por favor, viajem o menos possível.

Tenho os meus pais a viverem na zona amarela, de risco, mas ainda aonde se pode sair com muito cuidado à rua.
Eles tem a idade e factores de risco. Se acontecer alguma coisa  não sei mesmo se vamos poder viajar,  nós para lá ou eles para cá.
Ontem sairam para comprar uma prenda ao meu puto, que faz anos este mês. Eles não são muito de Amazon e afins, mesmo que eu queira muito ajudar nisso há uma forte resistência neles a entrar neste século. Não sei quando vamos viajar para lá outra vez. Não posso agora.
Estou triste, estou preocupada, sim.
Mas sobretudo estou zangada.
Revoltada, com a ideia rastejante que "tanto são os velhinhos os que falecem".
E ainda assim, esta é uma mentira assobiada por ali, para que o mercado não fique a perder. Não morrem somente os velhinhos. Palavra de médico.
Peço que pensem nas vossas famílias e que se zanguem (e se estiverem com vontade, que partilhem. Gostava que a minha zanga chegasse à DGS, ou até ao Primeiro Ministro).


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