Quando me dirão: "ah e tal, finalmente voltaste ao trabalho."
Bem, finalmente irei descansar as minhas costas de tanto colo, pelo menos um bocadinho.
Irei descansar um poucochinho os nervos (até ao burnout de outras rotinas); os sentidos: os ouvidos, dos choros; a vista, da atenção a que não ponha nada na boca que não pode ser; a voz, do repetir inúmeras vezes a mesma coisa.
Irei descansar as mãos secas, de tanta coisa para lavar, esperando ter dinheiro para contratar uma mulher ou um homem a dias, para dar um jeitinho nesta bagunça toda que se irá acumulando.
Esses trabalhos, assim, só me calharão no resto do 24/7.
Uma coisa só, provavelmente, vai efectivamente deixar de me cansar tanto.
Na vizinhança, não houve um dia em que os berbequins, os martelos (pneumáticos e não), as serras e moto-serras, se calassem. Durante alguns meses um apartamento do meu predio esteve em obra, antes diziam para habitação, agora tem AL na porta. Os trabalhadores que ali estiveram tocavam sempre à minha campainha, para que lhes abrisse o portão. Esse sempre fechado, as portas, no entanto, abertas que todo o pó e o barulho subiam até ao nosso andar. Que se lixe.
Há uns dias recomeçou o zum-zum de agentes imobiliários e dos bancos para vender outro apartamento, na cave.
Hoje tocaram mais uma vez à minha campainha, com uma prepotência...
"quem é?"
"é do banco, pode-me abrir?"
"do banco?"
"sim, para a cave."
"olhe eu tenho uma menina pequena, a dormir, por favor, não toquem aqui."
"mas é do banco."
"e então?"
"é do banco, da cave"
(gente que para pagarem o condominio do apartamento na posse deles...)
"eu não trabalho para o banco, certo? nem para agência nenhuma, nem para as empreitadas e homens das obras. certo? então porque tocam aqui?"
"mas olhe, vai ver que é provavelmente a última vez, devemos conseguir vender hoje."
"e?"
"ah, mas nós não temos as chaves do portão."
"arranjema chave. eu não disse que não abria agora. disse de deixarem de tocar aqui porque tenho uma menina pequenina a dormir e porque não trabalho para vocês. esta é a última vez que abro."
Cum caraças.
"é do banco."
#moraremlisboa
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